16 de ago de 2010

Resumo

Estou de volta ao Brasil, depois de 3 meses de uma viagem que não vou esquecer tão cedo.

Ainda estou me readaptando à vida aqui, que era bem diferente da rotina que eu tive durante a viagem. Com a cabeça limpa e as ideias renovadas, tenho agora uma chance rara de criar novos e melhores hábitos, aproveitar melhor meu tempo, especialmente perto das pessoas importantes pra mim. A solidão que senti na viagem não foi tão ruim porque foi voluntária. Eu quis ir sozinho, passar por tudo o que eu passei sozinho. Testei minha paciência comigo mesmo e me suportei bem. Me conheço melhor hoje.

Em 90 dias na Europa, pedalei 3.731km. Passei por 11 países. Minha bike pesava 35 kilos, que se tornaram suportáveis depois dos primeiros dias e leves depois do primeiro mês. Mas, ainda assim, só eu sei o quanto era pesada e quanto esforço eu fiz pra carregar minha "casa" durante esse tempo todo.

Vi todo tipo de paisagem. Montanhas com neve, vales, lagos, cânions, planícies, morros, cachoeiras, mares. Vi plantações, moinhos de vento, pontes, túneis, igrejas, castelos e as onipresentes ruínas do império romano. Tirei 3.900 fotos, fiz mais de 100 vídeos curtos. Podia ter tirado mais de 20.000 fotos e ainda não ia ser capaz de registrar tudo o que eu vi. Nenhuma foto substitui a experiência real.

No dia mais longo, pedalei 160km. No mais curto, com muito esforço, pedalei 14km. A distância não diz muita coisa quando você está sujeito a tanta variáveis. Pedalei com sol e chuva, com vento, com frio, com neve. Com vento, frio, garoa e neve ao mesmo tempo. Pedalei com -5 a +40 graus. Senti frio como nunca tinha sentido antes. Senti também o vento na cara e pedalei sem as mãos, olhando o céu azul acima. Acima de tudo, senti liberdade.

Passei por tudo quanto é tipo de estrada. Asfalto bom e ruim, terra, pedra, paralelepípedo, grama, lama. Pedalei tirando fina de caminhão mas tive a estrada só pra mim na maioria das vezes. Dava pra deitar no meio, como já tinha feito um dia na Patagônia.

Andei por planícies de 100km em linha reta, sem uma subida nem descida. Cruzei os Alpes, venci muitas e quase fui vencido por poucas montanhas. Alcancei 5 passos: Simplonpass (2005m) e San Bernardino (2065m) na Suíça; Gerlospass (1628m), Felbertauerntunnel (1632m) e Wurzenpass (1073m) na Áustria. Meu corpo foi muito mais capaz do que eu imaginava. Não empurrei a bike um dia que fosse. Subi fazendo muita força pra andar a 4km/h, mas subi. Desci - sem pedalar - à 73km/h.

Nunca ouvi tanta música na minha vida. O iPod foi a melhor coisa que eu carreguei na bagagem depois do protetor de ouvido. E descobri que ninguém faz música melhor que o Sigur Rós. U2, Arcade Fire, Belle and Sebastian e Trashcan Sinatras vieram num distante segundo lugar.

Em cima da bike, comi como devia comer. Frutas, chocolate, carbo e água o tempo todo. Fora da bike, comi porcaria na maior parte do tempo, sem arrependimento. Mesmo assim, emagreci. O gasto calórico é tanto que seu corpo aprende a absorver o que for. Sinto meu corpo mais resistente e vou tentar manter ele assim daqui pra frente.

Considerando tudo o que podia acontecer de imprevisto, não pude ter tido mais sorte. Peguei tempo bom em uns 70 dos 90 dias. Não tive nenhum pneu furado em 3700km. Antes de viajar, furei esse mesmo pneu 50 metros depois de sair de casa. Não levei nenhum tombo. Não tive um resfriado, alergia, picada, problema muscular, nada. Não fui assaltado e nem cheguei perto de ser, eu acho. Não tive problema nas fronteiras nem com a língua.

Conheci mais gente do que podia imaginar, de tudo que é lugar do mundo. Da Costa Rica à Lituânia, da Bielorússia ao Burundi, da Austrália ao Iran. Fui tratado muito bem por quase todo mundo, como se eu fosse um amigo de infância. No começo, fui idiota em me surpreender com isso. Descobri que existe muito mais pessoas boas no mundo do que me parecia. De graça, me deram informação, manutenção na bike, acomodação, comida, água e roupa lavada - e passada. Obrigado à Julie em Auxerre, Silvie em Bern, Constant em Besançon, Hanspeter e Rita no Simplonpass, Eduardo e Christian em San Bernardino, Nóra em Egararacsa, Deborah em Neuchatel, Veronika em Jönköping, Karolina, Mariann e John em Székesfehérvár, Tania em Copenhagen, Andreas em Dresden, Eva e Lučka em Laško, Wesley e Cristina em Örebro, Saša, Nina e Marija em Begunje, Antonia em Budapest, Thiago, meu "brothérr" em Stockholm e Pete, Jorge e Florian pela companhia providencial em Oslo. Faço questão de lembrar de todos vocês e espero um dia poder retribuir. Me deram atenção, amizade e o precioso tempo das suas vidas sem pedirem absolutamente nada em troca. O mundo parece um lugar melhor agora.

Obrigado também a todo mundo que me mandou mensagens de apoio pelo blog, skype, msn e email. Tanto de gente que eu não conheço como de gente que eu não esperava, além de amigos e familiares. Vocês não sabem o quanto esse gesto me fez bem.

Planejar a viagem a um ano atrás até o dia da volta na semana passada exigiu de mim
muita disposição e energia. Organizei meu tempo, treinei, guardei dinheiro e fui. Olhando pra trás, agora tudo parece ter sido fácil. Mas deu trabalho pra caramba, foi cansativo. Algumas vezes perdi a paciência, o humor e o ânimo, mas recuperei tudo isso depois.

Um dos caras em que eu me inspirei pra fazer essa viagem foi o Amyr Klink. Existe um trecho de um livro dele que eu já gostava muito e agora faz muito mais sentido:


"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver."


Viajem!

14 comentários:

  1. Fernando, mais uma vez parabéns pela empreitada.
    Descobri seu blog um pouco tarde, mas a tempo de acompanhar os últimos dias de sua viagem.
    Sonho muito em fazer algo parecido com o que você fez e por razões parecidas.
    Gostaria de poder trocar algumas informações com você sobre esse tipo de viagem. Meu email é julianaogata@hotmail.com
    Complementando com mais uma frase do Amir Klink: "Um dia é preciso parar de sonha e de algum modo partir.".

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  2. Porra, mermao. Isso ai tem que incentivar essa galera brasuca a meter o pe na estrada mesmo. E chega desse papo de tourzinho. Tem q ser no peito e na raca. Foi um prazer tirar uns dias pra rodar contigo em Estocolmo. E ai? Que tal um tour pela Asia ou Africa em breve? Nao vou esquecer aquele convite para comer um churra em sorocaba nao! ate breve, mermao.

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  3. Fernando,
    Que relato curto, sábio e cheio de experiências...
    Eu imagino bem o que isso representou para vc, pois amo viajar, e não só no turismo basicão! Já tive algumas experiências de viagens solitárias, claro, sem comparação com o que vc fez. Mas sei o que vc sente e relata. Esta coragem são para poucas pessoas, pessoas que realmente não se importam de estarem sózinhas em algum momento. São pessoas fortes e conseguem sobreviver muito melhor em situaçãoes do cotidiano! Eu convivo muito bem com a solidão.
    Vc é um cara de sorte! Agradeça a Deus, sempre, por "quase" nada ter dado errado!..rsss...
    Ah, e não posso deixar de mencionar que virei fã do seu grupo favorito, e que a sua mãe, muito querida, já me enviou o nome da música que gostei, do seu vídeo, o segundo.
    Bjo gde.

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  4. Cara,

    Acompanhei tua viagem todos os dias... Ficava na ansiedade pra ver se tinham aparecidos relatos novos.

    Parabéns pela empreita.... Já fiz um cicloturismo de 600km ano passado e farei outro de 700 em setembro .... mas sonho com um "longão" no estilo do seu!

    Abraços,

    Rodrigo

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  5. Muito bom ! Acompanhei toda a viagem . Muito inspirador .

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  6. Você é um heroi!!...Não por ter feito algo "impossível", mas por ter enfrentado o desafio de realizar um sonho. É necessário muita coragem pra isso.
    Um dia, chego lá também.

    Mantenha o blog.
    Conte mais sobre sua viagem e sobre o que anda fazendo por aqui após sua viagem.
    Abraço e parabéns!

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  7. Fernando, faço das suas palavras as minhas. Estranho, ou nao, mas lendo seu breve texto me traz mta coisa ao peito. fiz uma viagem parecida, pouco dinheiro e a pé, as impressoes sao semelhantes. Certa vez durante minha viagem encontrei seu blog e agora novamente revisito.
    o "senti liberdade", "descobri que existe muito mais pessoas boas no mundo do que me parecia", o florescimento de uma humildade e respeito pela vida sem igual assim como o reconhecimento das capacidades (muitas vezes que se parecem infinitas) do próprio corpo e da mente... amyr klink inspira mta gente com esse trecho que talvez ele msm nao faça idéia, que bom.

    Grande abraço e parabéns.

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  8. Fernando, Parabéns pela viagem!

    Cheguei ao seu blog pois estou em fase de pesquisa de um projeto e volta ao mundo. Iremos eu e minha esposa. Estamos retomando a rotina de exercícios e pretendemos realizar trechos em bicicleta.
    Se possível anote meu e-mail cerriandre@hotmail.com pois eu gostaria de tirar algumas dúvidas com você.

    Forte abraço e muita luz,

    André Cherri
    www.andrecherri.com

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  9. Olá Fernando, tudo bem!? Moro em Florianópolis e eu e meu namorado Camilo estamos planejando uma viagem de bike pela Europa. Decidimos comprar as bikes e lá. A viajem terá início em Portugal, não sabemos ainda se em Porto ou Lisboa. Depende um pouco da pesquisa que estamos fazendo sobre as lojas e marcas vendidas. Vi no seu blog que tu comprou os alforges da ortilieb. Temos 2 traseiros e 2 dianteiros dessa marca, mas foi um amigo nosso que mora na Alemanha que nos mandou. Preciso de mais 2 traseiros, uma mala daquela traseira q vai em cima do bagageiro e uma bolsa de guidão. No caso, esse nosso amigo está de férias aqui no Brasil e não temos quem nos mande. Não sei se tu chegou a ir em Portugal, mas se foi tu viu essa marca sendo vendida lá? Tu comprou os seus por aqueles links que postou? Foi taxado pela receita federal? Desculpe tantas perguntas, mas se puderes me ajudar com alguma informação.
    Desde já agradeço a atenção!

    Abraços,
    Renata Mazer.

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  10. Fala Fernando!
    Infelizmente só achei seu blog essa semana, quando comecei a planejar minha viagem de bike pela europa!
    Tenho algumas (tá bom, várias) dúvidas a respeito..
    pretendo sair do norte da frança e chegar em zagreb, passando pela alemanha, sul da frança, suíça, etc..
    entre elas a língua francesa, passando pelo interior da França.. eu nao falo uma palavra em frances, vc acha interessante fazer um curso durante 6 meses aqui no brasil antes de ir?
    Valeu!
    Abraços!
    Guilherme Pestana

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  11. Quero ser voce quando crescer...

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  12. Perdeu a namorada, mas ganhou uma melhor depois! hahaha Orgulho da minha vida! Te amo

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  13. Cara, já fiz algumas cicloviagens curtas, e fiquei "babando" na sua aventura. Me fala uma coisa 35 kilos de bagagem é muito pesado? O que levou que achou necessário e o que dispensaria. Sei que a bagagem é um dos itens primordiais para o sucesso da empreitada, por isto gostaria de conhecer, se possível, sua opinião.
    Um grande abraço
    Marcos

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  14. Boas Fernando!

    Primeiro parabenizo pelo êxito na viagem e pela qualidade do material aqui postado, realmente muito bom, com um texto de leitura leve e cativante.

    Sou mais um daqueles que você já deve estar cansado de responder, lêem o blog e dizem que ao viajar.

    Enfim, já marquei data e itinerário, entre abril e julho de 2015, parte do percurso semelhante ao seu mas em sentido contrário. Só gostaria, se possível, que me respondesse para confirmar alguns pontos bem específicos e mais operacionais da viagem, onde ainda tenho um pouco de insegurança.
    Pratico ciclismo há um tempo e já fiz viagens de fim de semana, possuindo praticamente todo equipamento necessário.

    Abraço
    Thiago

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